Canadá | Ver, comer e experimentar
A minha parte favorita da viagem
Embora recorde Toronto com carinho, é aos lugares deste guia que regresso quando passeio pelas memórias desta viagem.
Quando iniciei esta aventura, jamais imaginei o quanto esta viagem seria transformadora em várias dimensões. Sentimos o seu impacto até aos dias de hoje; naquele final de tarde, com os pés de molho no lago e sentados no passadiço, permitimo-nos a sonhar com um futuro que não tivesse um oceano entre nós. Hoje, escrevo-vos este guia na nossa casa, onde cada detalhe que escolhemos é inspirado na cottage onde demos o derradeiro mergulho de cabeça.
Pensei muito se arriscaria colocar ‘Canadá’ quando, na verdade, vi(vi) uma fração muito pequena deste país tão amplo e diversificado em paisagens, culturas e referências. Mas é assim que gosto de viajar, colecionando devagar as várias fotografias que compõem uma nação de forma sólida, como se fossem peças de um puzzle que nunca terei a capacidade de terminar. É a única forma que conheço, enquanto turista, de submergir um pouco mais, de observar um país além da sua superfície. Portugal é mais profundo que Lisboa, mais profundo que o Porto. E o Canadá, sem dúvida, é também mais denso do que esta lista.
Não sei se este guia é prático, mas foi, sem dúvida, delicioso de registar. Transportou-me de volta para o amanhecer nas cataratas e para os mergulhos no lago. Para as noites a fazer smores no pátio e para as cidades pitorescas onde parávamos para comer, passear e desentorpecer as pernas das longas viagens de carro.
Vou à descoberta de novos lugares e experiências e regresso sempre com novas portas na minha história e na minha vida, à espera que tenha a coragem de as abrir e entrar. A logística é muito maior, mas também mais recompensadora.
Sugiro que, para este guia, aluguem um carro. Vai valer muito a pena, prometo.
Se quiserem só recomendações para Toronto, este artigo pode ajudar:
Toronto | Ver, comer e experimentar
Há cidades que temos o privilégio de conhecer através das nossas pessoas antes de as visitar. Toronto será sempre o meu exemplo, uma cidade que nunca irá precisar de um aperto de mão formal entre nós: já a conhecia das memórias que os meus avós partilharam comigo, da rua onde viveram, da loiça que voltou com eles para Portugal e onde me servi a vida tod…
Basta clicarem nos títulos e vão parar às localizações exatas
Ficar
Anna’s place
É difícil dar-vos sugestões de lugares específicos para ficarem porque 1) fiquei sempre em casa de familiares do J e 2) vai depender do vosso roteiro. Mas a mãe do J tem um airbnb em St. Catherines (uma cidade pequena a 20 minutos de carro de Niagara Falls, 30 minutos de Niagara-on-the-Lake, 1h30 de Toronto e ~10 minutos de alguns dos lugares que eu vou deixar neste guia) e isso dá-me a máxima confiança de que seria um lugar fantástico caso queiram explorar as redondezas ou fazer uma paragem por esta zona.
Pude testemunhar em primeira mão o quanto a Anna se esmera em todos os pormenores, até no pequeno-almoço. Estando tão longe de casa, não consigo imaginar algo melhor para a vossa estadia.
Comer



Gelataria Avondale
Há lugares no Canadá que parecem cristalizados no tempo (pelos melhores motivos) e a Gelataria Avondale é um desses espaços. Toda a estética transporta-me até aos anos 70/80. Atrás da gelataria, encontram a fábrica de leite onde os gelados são produzidos artesanalmente com sabores são muito variados. Acho uma boa oportunidade para provarem sabores mais típicos do Canadá, como Moose Tracks ou Maple Walnut.
Há um pormenor nesta gelataria que, para mim (Europeia), me deixou um pouco perplexa ao início: é muito provável que sejam atendidas por adolescentes muito jovens (12 anos, por exemplo). No Canadá, é estimulado que os adolescentes tenham empregos em part-time. Os horários são mínimos (penso que, até aos 14-15, não podem trabalhar mais de duas horas e a partir daí não podem trabalhar mais de 4 horas), mas foi, de facto, algo que estranhei ao início. Fui servida por um menino e, quando recebi o gelado, a senhora que estava ao balcão ao pé de mim disse, com o maior orgulho ‘é o meu filho!’.


Pizzaria Bricks & Barley
Já estive, com muita sorte, em Itália, e posso garantir que a melhor pizza da minha vida foi devorada no Canadá, neste restaurante incrível. O ambiente já me tinha convencido quando vi que a decoração era temática de basquetebol (com coletes e memorabilia assinados por jogadores da NBA - bem sei que é um universo da minha vida pouco explorado no digital, mas eu amo este desporto). Os olhos já brilhavam, mas depois serviram-nos esta pizza de pepperoni com burrata e, desde então, é o nosso ingrediente secreto em todas as pizzas que fazemos cá em casa. Absolutamente divinal.
Beaver Tails
Dizia-vos eu no artigo de Toronto que o doce mais tradicional do Canadá nasceu em Ottawa e agora recomendo-vos o lugar onde tudo começou e onde o podem provar. Mesmo no ponto de partida para o ByWard Market, encontram a banquinha original onde podem experimentar diferentes combinações de ingredientes e toppings. À semelhança do que disse antes: recomendo um para partilhar, a não ser que sejam muito gulosas.
Visitar
Niagara-on-the-Lake
Se gostavam de imaginar como seria Stars Hollow na vida real, é só passearem por Niagara-on-the-Lake; as casas são pitorescas, as montras decoradas a rigor e há flores frescas e coloridas em cada canto nas ruas. O relógio da cidade é adorável e há casinhas de chá, livrarias, dinners e até um teatro local. Tudo nesta pequena cidade parece um cenário de filme que se supera na vida real.
Fica na rota para as Cataratas do Niagara, por isso, se estiverem com um carro, podem incluir no vosso roteiro ou, se estiverem de transportes, procurar uma tour que combine a visita aos dois locais (têm várias).



Cataratas do Niagara
Há lugares que merecem todos os clichés e as Cataratas do Niagara são um exemplo disso. Foi um dos lugares mais impressionantes onde já estive e a sensação, dois anos depois, permanece no meu peito.
O rio Niagara separa o Canadá dos Estados Unidos, culminando em grande potência nestas maravilhosas cataratas. São compostas por um grupo de três: Bridal Veil (a mais pequena de todas), a catarata americana e a catarata canadiana (a maior e também conhecida como Horseshoe Falls por causa do seu formato de ferradura).
Um dos aspetos que mais me surpreendeu nas Cataratas do Niagara é o ambiente que as envolve. Na minha inocência (ou ignorância, na verdade), imaginava as cataratas envoltas numa reserva protegida, mas, na verdade, estão mesmo ao lado daquilo que eu só posso comparar com Las Vegas: casinos, edifícios em néon, hotéis e arranha céus, um ambiente completamente urbano onde a magnitude destas cataratas quase parece destoar. Neste sentido, quem vê as cataratas a partir dos Estados Unidos, está em desvantagem; a vista é mais bonita quando estão na margem do Canadá.
Mas que isto não vos demova de as ver porque, como é apanágio, a Natureza vence. Eu recomendo que cheguem antes do nascer do sol e que vejam o amanhecer no miradouro: o lugar está praticamente vazio e têm as cataratas só para vocês e com um céu inesquecível.
Se o fizerem, têm também a vantagem de poderem apanhar o primeiro barco do dia para visitar as Cataratas, o que é fantástico para evitarem filas e multidões. Recomendo uma roupa fresca (e rápida de secar) e chinelos porque vão ficar encharcadas. Têm sempre a opção de ficarem dentro do barco, mas vão por mim e fiquem na proa, frente a frente para algo que corta a nossa respiração e reduz-nos ao nosso tamanho. Ver as Horseshoe Falls sem nada mais à minha frente foi o mais próximo que consigo pensar de uma experiência sagrada. Valeu a molha.



Ottawa (e The Famous Five)
Não faltam cidades fantásticas no Canadá para visitar, mas Ottawa era a que ficava mais de caminho para uma das cottages e foi a que decidimos visitar. A nível turístico, acho uma cidade simpática para uma day trip.
A partes mais charmosa de Ottawa é, na verdade, a arquitetura, uma mescla muito inglesa e francesa que nós na Europa reconhecemos muito bem. É interessante ver esta impressão digital numa cidade Norte-Americana.
Mas as minhas duas atrações favoritas da cidade foram o salão de chá do Château Laurier (onde vale a pena pedirem o menu de chá e bolinhos, uma delícia!) e ver ao vivo as The Famous Five, um importante monumento sufragista. Esta instalação homenageia as cinco mulheres canadianas que fundaram o movimento ‘Women are Persons!’, contestando a lei que, em 1927, não reconhecia as mulheres como pessoas. Apenas em 1929 a lei foi devidamente corrigida.
1929 parece um lugar infinito no passado, mas tem apenas 97 anos de distância. A nossa geração (e a geração das mulheres que nos criaram) carrega nos ombros este legado. É surreal pensar que nem há 100 anos eu (e tu, leitora) éramos consideradas pessoas. E isto carrega um peso, mesmo que nem sempre o consigamos quantificar no dia a dia.
Almonte
Talvez seja uma recomendação muito específica, mas se forem amantes de basquetebol - ou forem de viagem com alguém que seja - vale a pena confirmarem se esta pequena cidade está perto do vosso roteiro. É, nada mais, nada menos do que o berço do basquetebol.
Acho que o que mais adorei nesta pequena cidade foi o facto de ser isto: uma small town, absolutamente discreta e pitoresca, com vida e personalidade próprias e independentes de qualquer conotação desportiva. Mas depois, numa praça insuspeita, encontramos uma singela estátua do Dr. James.
É quase mágico pensar que, há mais de 100 anos, numa pequena cidade escondida neste país, um professor decidiu criar um desporto coletivo indoor que fosse possível de praticar durante os invernos rigorosos do Canadá (e que chamou de Duck on the Rock) e que essa decisão iria impactar a vida de uma adolescente em Portugal, várias gerações depois. Criei memórias especiais e o grupo de amigas que hoje considero família, por isso, tenho, de facto, mais a agradecer ao Dr. J do que ele consegue imaginar.
Fazer




Férias no lago
Foi no Canadá que confirmei as minhas suspeitas: cresci com mar, mas os lagos são o meu elemento. Aproveitei esta visita para tirar dos livros e das histórias aquilo que sempre quis viver: uma temporada numa casa em frente ao lago, rodeada de fauna e flora, com um passadiço para mergulhar (mas não para sentar ou apanhar sol… descobri da pior forma que passadiços são o lugar favorito das wolf spiders - não pesquisem) e uma muskoka para ler e fazer sestas ao sol.
Talvez venha a descobrir outros lugares no mundo que vivam (tão) bem esta tradição, mas, por agora, arrisco dizer que ninguém faz verões no lago como os Canadianos e, se estiver dentro do vosso tempo e budget, recomendo muito que experimentem. Estas foram as zonas onde ficámos e que recomendo para procurarem um airbnb: Barrie, Mississippi Lake e Carleton Place (ficámos em frente a Craig Shore).
White Water Walk
Esta é uma atividade perfeita para combinarem com a visita às cataratas, uma vez que se complementam; depois de estarem perto das Cataratas do Niagara, vale a pena fazerem os passadiços que percorrem a margem. Todo o percurso é magnífico, desde a cor da água (com uma tonalidade bem particular graças aos minerais que carrega consigo - a força da água é tanta que causa muita erosão), à experiência de ver uma fronteira tão perto. Do outro lado da margem, turistas dos Estados Unidos passeiam nos seus próprios passadiços, acenando.
A potência com que a água circula é uma visão que ficou impressa na minha mente para sempre.
White Meadows
Se o Canadá é tão famoso pelo seu maple syrup, então vale a pena verem de perto como é produzido. Dependendo da altura em que visitam, a experiência pode ser mais ou menos completa - no verão, não há produção, por exemplo, mas no inverno já conseguem ver todos os passos. De qualquer forma, é uma visita que vale sempre a pena, até porque a localização é de sonho e a loja tem vários xaropes de acer com diferentes gostos e intensidades, onde podem provar e escolher o vosso favorito.



Skyway drive-in theater
Acho que este foi um dos meus dates favoritos da vida: ir ao Skyway é viver na primeira pessoa o imaginário dos cinemas drive-in. Tudo parece cristalizado no tempo - os letreiros, o bar e os alertas no ecrã parecem parados nos anos 70/80 -, exceto os filmes, num catálogo que mistura novidades com lançamentos mais antigos (para os nostálgicos).
As famílias juntam-se, fazem autênticos piqueniques nas malas dos carros e há mantas, pipocas, snacks e uma sensação única que não consigo explicar, mas que daria tudo para repetir.
Comprar
Outlet Collection at Niagara
Os outlets são a grande febre das cidades Norte-Americanas e, de facto, depois de visitar uma, consigo entender porquê. Se estiver nos vossos planos visitar algum, este em Glendale é bastante completo e conseguem aproveitar um pouco de tudo.
Neste outlet, têm a vantagem de haver praça de alimentação (não é sempre garantido que estes lugares tenham serviços de restauração, como estamos habituados em Portugal. Mas este tem). Quem sou eu para apelar ao consumismo alheio, mas, se têm alguma compra em mente, pode ser o sítio certo para encontrar.
Value Village
Se, por outro lado, estiverem mais inclinadas para comprar em 2ª mão ou para encontrarem artigos mais vintage, a Value Village pode ser uma opção mais acertada - têm várias localizações no Canadá.
Na Value Village, encontram, essencialmente, de tudo: têm roupa, calçado e acessórios, livros (este é o lugar que recomendo caso queiram comprar livros no Canadá porque as livrarias são caríssimas. Aqui, encontrei edições fantásticas a preços inacreditáveis) e vários artigos para casa, até móveis! Por isso, acho que pode ser o lugar ideal para encontrarem peças únicas e boas oportunidades.
Sinto-me nostálgica e emocionada por fechar este capítulo e esta viagem tão transformadora em tantos sentidos. Espero que se sintam tão acolhidas no Canadá como eu me senti. No país com mais lagos no mundo, deixei um grande volume de lágrimas na hora da despedida, para contribuir. Quero muito voltar e diversificar ainda mais este guia.
No próximo postal, mudamos completamente de mood e cultura. Aceitam viajar comigo até Itália? 🍝
Até ao próximo postal,
Inês









Que guia tão cheio de carinho, tão pessoal e com imagens dignas do cntraveler, ora! Tiveste um guia exímio e fico tão feliz que a tua história de amor te tenha levado até lá. Vou guardar para um dia usar 🤍 até lá fico a sonhar com vilas pitorescas e natureza de perder de vista
(deu-me vontade de apanhar a linha vermelha do metro e meter-me do outro lado do Atlântico..)